quinta-feira, 27 de maio de 2010

Segurança mútua (Coluna Cena Política - Rádio Catedral FM 102,3)

Olá, boa tarde! Curioso notarmos como certas marcas do passado provocaram traumas tão profundos na sociedade brasileira que, por vezes, eclodem nos momento menos esperados. Falo não de uma, mas das muitas marcações autoritárias em que o país testemunhou com dor a perda da liberdade, da possibilidade de participar e contestar, expressando opiniões contrárias ao que era tido como “certo”. Foi assim no Estado Novo em 1937 e no Regime Militar instalado a partir de 64, apenas para lembrar acontecimentos que se encontram no cume da história. Porém ela, a história, acredito que sirva precisamente a esse propósito: impedir que os traumas do passado esmoreçam no intento de evitar que o pior se repita, seja como tragédia, seja como farsa. Digo isso porque um período eleitoral é sempre a síntese de um tempo, ora curto, ora longo, mas que pode, sem dúvida, ser pensado como um bom momento de inflexão do passado, do presente e do futuro. As eleições que se aproximam colocam, novamente, a chance de pensarmos o país numa chave maior, onde os atores e os fatos são amarrados pela política na construção do que somos e seremos. O Brasil mudou, num tempo longo, para melhor. Consolidação de direitos, expansão de liberdades, expressão de diferenças, manutenção de instituições, no limite, o século que passou nos mostrou uma viagem capaz de irromper com previsões pessimistas feitas outrora, ainda que haja, sempre, muito por fazer. Contudo, hoje temos, sem medo de errar, uma democracia em muito melhor do que ontem e isso não pode, certamente, ser creditado apenas ao último governo. Ainda assim é usual ouvirmos que os traumas do passado podem repentinamente corroer as conquistas do tempo. Usual e bom. Como disse antes, talvez seja essa a virtuosa tarefa da história. Concorrente a ela, no entanto, incluo a tarefa dos atores do presente, incluo a nossa tarefa. No momento eleitoral que se aproxima enfrentaremos um gargalo onde as conquistas do passado, bem representadas pela transformação da sociedade brasileira que salta aos nossos olhos, serão objeto de disputa dos protagonistas. Dilma, Marina e Serra anseiam, mais do que a negação uns dos outros, ser a síntese do lado bom da nossa história. Mas a viagem, é bom lembrar, não é “redonda” e sim rumo ao futuro. Nela surgem novos temas, como a questão ambiental, por exemplo, e o mais importante é nos assegurarmos que seu percurso seja inquieto, mas pacífico. O presidente Lula é um mito, é o “filho do Brasil”, quanto a isso não vejo problema. A política talvez precise de líderes carismáticos como Lula. Isso não significa, entretanto, que o carisma possa suprimir as regras. A troca pacífica do poder por meio das eleições é o que a história nos mostra como o caminho “certo”. Não creio que o “filho do Brasil” seja contra isso e aqui se encontra a nossa tarefa: garantir que as eleições de 2010 reforcem o regime de segurança mútua que há pelos menos 16 anos vigora entre nós, onde quem é democraticamente derrotado, entrega o poder ao vencedor e aceita o consenso.

Boa tarde a todos e até o Cena Política da semana que vem!A coluna Cena Política vai ao ar todas as quitas (por volta das 14:30h), na Rádio Catedral FM 102,3.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

E o ficha limpa será aprovado... (Coluna Cena Política - Rádio Catedral FM 102,3)

Olá, boa tarde! Já está no Senado Federal o projeto que torna inelegíveis candidatos condenados em primeira instância por um colegiado de juízes, fruto de uma iniciativa popular apelidada de “ficha limpa”. Até então eu vinha chamando a atenção para a importância de discutirmos a iniciativa em termos políticos, ultrapassando o “moralismo” com o qual a proposta está sendo tratada pela mídia em geral e por diversos setores da opinião pública. Acho, no entanto, que os destaques que foram votados melhoraram e muito o projeto, não só por reparos pontuais, mas também pela reivindicação da classe política de discutir, democraticamente, a proposta. Sou contra a corrupção e considero positiva toda medida honesta de combate a ela. O que me incomoda no assunto “ficha limpa”, porém, é que em momento algum a sociedade havia parado para pensar melhorias e perigos embutidos na proposta, como se ela fosse o remédio para todos os nossos males. Democracia não é se calar diante de transformações que podem alterar substantivamente as regras do jogo político, por exemplo, mas exatamente o contrário: discutir, refletir, emitir opiniões, ponderar e, por fim, deliberar o suposto consenso ou, numa visão mais realista, manifestar a vontade da maioria. Mesmo assim, a onda de “moralismo” que acompanhou as discussões sobre o “ficha limpa” impediu que qualquer crítica ao projeto fosse feita sem que aqueles que se propusessem a melhorá-lo fossem tachados de corruptos ou defensores da corrupção. Não é bem assim. Pensar melhorias para as regras do jogo político é necessário. Mas devemos estar atentos a possíveis conseqüências imprevistas para que boas intenções não se traduzam em malefícios irreversíveis. E o mais importante, no meu juízo, sobre o projeto em questão é a sociedade brasileira perceber que não pode, em momento algum, abrir mão da política no encaminhamento e resolução dos problemas que nos afligem. Juízes podem ser um bom “filtro”, ainda que passíveis de erro, quando se trata de condenar, com base na lei, criminosos. Mas seguramente não são os personagens mais indicados quando se trata de discutir saneamento básico, cotas raciais, homofobia, desigualdade social, discriminação racial, gênero, reforma agrária, financiamento de campanha, voto obrigatório, saúde, educação e toda sorte de problemas que formos capazes de elencar como cruciais para o bom funcionamento do país. É a política a responsável por isso e não podemos esquecer dela. Que o “ficha limpa” venha, tudo bem; mas sem abrirmos mão do voto, da democracia, da boa discussão, da política. Boa tarde a todos e até o Cena Política da semana que vem!

A coluna Cena Política vai ao ar todas as quitas (por volta das 14:30h), na Rádio Catedral FM 102,3.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Direito, democracia e república (Valor Econômico)

Luiz Werneck Vianna (CEDES/IUPERJ)

A presença do Direito e de suas instituições na vida social e política contemporânea consiste em uma marca que, independente de juízo de valor quanto ao fato, se impõe ao observador. A bibliografia sobre o assunto é abundante e não para de crescer, girando, em boa parte, em torno da controversa questão que trata da chamada judicialização da política e das relações sociais. No Brasil, quando da sua recente despedida da presidência do Supremo Tribunal Federal, o juiz Gilmar Mendes, apresentando, em tom alarmado, estatísticas sobre a expansão da litigação no país – hoje, em torno de 80 milhões de ações em andamento – avançou o diagnóstico de que "a sociedade brasileira se tornou dependente do Judiciário". A ressalva a ser feita é a de que tal fenômeno não nos é singular, pois afeta, em maior ou menor medida, as sociedades ocidentais desenvolvidas. Antoine Garapon, reputado especialista francês no assunto, fixou em termos lapidares a natureza desse processo ao escrever que o Judiciário se teria tornado um moderno muro das lamentações.

A avaliação crítica desse fato, deplorado por uns como um sintoma de patologia da política contemporânea, visto como um sinal de vitalidade da democracia por outros, tem, no entanto, um registro comum: a invasão da vida social pelo Direito seria uma resposta ao esvaziamento da república, dos seus ideais e instituições, muito especialmente a partir dos anos 1970, quando a emergência triunfante do neoliberalismo, com suas concepções de um mercado autorregulado, importou o derruimento da arquitetura do Estado de Bem-Estar Social.

Esse tipo de Estado – não importam, aqui, considerações sobre o seu anacronismo na realidade de hoje –, em razão da sua forma específica, estava sustentado na organização política e sindical das diferentes partes da sociedade, cada qual identificada com seus interesses e projetos de uma vida boa, tal como expressos em seus partidos e sindicatos. O parlamento era uma de suas arenas, e, outra, não menos relevante, a das suas corporações e das disputas entre elas realizadas no interior do Estado e sob sua arbitragem, daí devendo resultar um "capitalismo organizado" orientado para o bem comum. Nesse sentido, o "Welfare State" foi republicano e se assentou sobre as suas principais instituições.

A imposição do neoliberalismo provocou a diluição das formas de solidariedade social que, de algum modo, o "Welfare" induzia, levando a uma intensa fragmentação da vida social, à desregulamentação de direitos, ao esvaziamento de partidos e sindicatos, que, ao lado de outros processos societais relevantes, foram fatores decisivos para que o Judiciário viesse a se converter em um novo lugar não só para a defesa de direitos, como também para sua aquisição.

O próprio legislador, consciente do quanto a sociedade se tinha tornado vulnerável diante do Estado e das empresas, vai fortalecer esse movimento a fim de lhe fornecer recursos de defesa, dando partida, assim, ao que se denominou a revolução processual do Direito, cujo marco mais representativo foi a criação da ação civil pública e, mais à frente, a institucionalização de códigos do consumidor, passando a admitir ações por parte de entes coletivos. No caso, uma das intenções implícitas do legislador foi a de tentar reanimar a vida republicana em cenários alternativos aos da representação política. Nesse novo registro, a república passa a ser tensionada por pressões de sentido democratizador que visam a conquista de novos direitos – o da infância, o da mulher, o do deficiente físico, o da cidade, o do ambiente, etc –, que são postos sob a tutela do poder judicial.

O caso brasileiro se alinha a essas tendências que mantêm sob tensão as relações entre república e democracia, mas certamente é singular. Em primeiro lugar, porque a república, aqui, nasce sem participação popular, filha que é da elite oligárquica de senhores de terras, refratária, ao longo de três décadas à incorporação dos seres sociais que emergiam do mundo urbano-industrial. A incorporação deles começa com a Revolução de 1930, quando se cria um sistema de direitos sociais em favor dos assalariados urbanos – não extensivo aos trabalhadores do campo –, mas que, em contrapartida, suprime a autonomia das suas associações e as põe sob tutela estatal.

Vale dizer, a república se "amplia", mas não se democratiza, persistindo como assunto de poucos.

A democratização da vida social é fato recente entre nós, e segue seu curso de modo cada vez mais intenso. Contudo, o problema agora se inverte: se temos democracia, estamos longe da república. Não há república sem vida ativa da cidadania na esfera de uma livre sociedade civil, protegida das políticas de cooptação do Estado e do poder do dinheiro. O constituinte de 1988 foi um bom intérprete da nossa realidade político-social ao dotar a sociedade de meios, inclusive judiciais, para a defesa da sua república, entre os quais o ministério público e a justiça eleitoral. O legislador não menos, quando criou a lei de Responsabilidade Fiscal.

A democracia de massas não pode abdicar da república, uma vez que, sem ela, é presa fácil para intervenções messiânicas, quando a decisão de um pode se justificar em nome do interesse geral de que ele seria o intérprete privilegiado. As eleições que se avizinham, mais uma vez, vão confrontar programas dos candidatos em torno de questões substantivas de relevância indiscutível, como educação, saúde, emprego e renda, mas a eles não pode faltar mais, como nas eleições anteriores, o tema da república e da auto-organização da cidadania. Já são décadas de modernização, chegou a hora do moderno.

Publicado no Jornal
Valor Econômico (03 de maio de 2010).

domingo, 2 de maio de 2010

Da importância do voto

No próximo dia 05 termina o prazo para o alistamento eleitoral, e assim como nos anos anteriores um dado tem incomodado setores da opinião: a baixa adesão ao processo democrático da parcela da população para a qual o voto ainda é facultativo, jovens maiores de 16 e menores de 18 anos. Desde a redemocratização esse contingente de eleitores vem diminuindo, conforme levantamentos do IBGE e da Justiça Eleitoral, fato mobilizado, por vezes, na denúncia de problemas estruturais da democracia brasileira. É comum ouvirmos a “desesperança” com relação ao exercício da política como justificativa para o não-alistamento “voluntário”, traduzida em frases conhecidas: “político é tudo igual, rouba e não pensa na população, para que votar?”. Até aqui, nada de novo. Fico me perguntando, apenas, qual seria o papel dos formadores de opinião nesse quadro de enfraquecimento do credo democrático? Faz algum tempo que me convenci de que os fatos não falam por si sós, como certa vertente da ciência política tentou defender, o que me permite ler a “realidade” numa outra direção. Schumpeter – economista, que curiosamente foi quem melhor equacionou o problema da democracia contemporânea – já nos alertava, no início do séc. XX, para os perigos daquilo que parece “evidente”. Ainda que sua crítica tenha, à época, outra direção, sua obra foi feliz na defesa do voto livre e autônomo como o mecanismo mais elementar na definição da democracia, instrumento do qual não podemos, em hipótese alguma, abrir mão sob pena de subvertê-la. Aqui reside o papel daqueles que ainda acreditam: falar algo novo sobre fatos antigos, assumindo com isso o compromisso da mudança. Sendo assim, por mais que o mau exercício de alguns corrompa a imagem de muitos, é importante percebermos que uma coisa são os maus políticos, outra coisa, bem diferente, é a política. E o voto, nesse cenário de “desesperança”, deve ser valorizado não apenas como um direito, mas sim como um dever: o dever de se ocupar dos problemas do país, mesmo que o país pareça se ocupar pouco dos problemas de cada um. Torço para que os jovens votem, pois esse ainda é o melhor caminho que fomos capazes de inventar.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

A quem interessava a candidatura de Ciro? (Coluna Cena Política - Rádio Catedral FM 102,3)

Olá, boa tarde! Na última terça-feira (27/04/2010) o Partido Socialista Brasileiro (PSB) decidiu não lançar a candidatura do deputado Ciro Gomes (CE) para a presidência da República. Ainda que a notícia não seja propriamente uma surpresa – e quando falamos de política quase nunca é –, ao oficializar sua posição o PSB torna mais claro o horizonte da próxima disputa. O partido agora encerra os ataques que Ciro vinha fazendo a todos, inclusive contra o presidente Lula, e negocia o apoio a candidatura da ex-ministra Dilma Rousseff (PT). Setores da opinião apontaram na decisão do PSB um elemento negativo para a democracia, associando a retirada da candidatura a uma possível interferência de Lula na composição da disputa. Eu particularmente acredito que essa suposta interferência ocorreu e mais, defendo que não é exclusividade do presidente e nem novidade nas eleições. Além disso, a construção de coalizões é prevista num processo democrático, desde que respeite as regras do jogo e não utilize de mecanismos ilícitos para impedir a entrada de novos personagens na disputa. Ao que parece, foi isso que Lula fez: negociou com o PSB, dentro de práticas toleráveis, o apoio do partido e a suspensão dos ataques direcionados ao PT. Até aqui, não vejo problema. Respeitado o princípio formal de que todos os partidos são livres para apresentar, desde que queiram, suas candidaturas podemos, então, se preocupar com outras questões. Uma delas é pensar o que levou o PSB a tomar tal decisão? Ou, dito de outra forma, por que o PSB assumiria uma postura diferente? A quem interessaria a candidatura de Ciro? Creio que apenas ao próprio Ciro. Lula poderia, numa atitude “ardilosa”, sustentar a entrada do PSB no pleito com o objetivo de desestabilizar a campanha de José Serra (PSDB). Poderia, caso Ciro não tivesse se tornando tão agressivo e pouco criterioso nos ataques, incluindo como alvos Dilma e o próprio Lula. Isso teria feito com que sua candidatura fosse desinteressante quando comparada ao apoio que o PSB pode conceder. Ciro Gomes errou ao tornar sua intenção mais um projeto de vaidade pessoal do que a vocalização de uma alternativa aos nomes em disputa. Sem falar, é claro, não ser ele um bom candidato. Ciro é intelectualmente capaz, administrativamente eficiente, mas politicamente rude. Não dá para ganhar uma eleição assim. Todos esses fatores pesaram na decisão do PSB: um candidato ruim, em certo ponto vaidoso, contra a entrada num barco que até pode afundar, mas por agora não dá sinais. Acho que a decisão foi, nesse caso, fácil. Boa tarde a todos e até o Cena Política da semana que vem!

A coluna
Cena Política vai ao ar todas as quitas (por volta das 14:30h), na Rádio Catedral FM 102,3.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Liberdade e autonomia na escolha (Coluna Cena Política - Rádio Catedral FM 102,3)

Olá, boa tarde! Uma das novidades para as próximas eleições será a participação de presos provisórios nas votações, conforme estabelecido por resolução do Tribunal Superior Eleitoral no mês passado. A decisão se justifica, dentre outros motivos, pela tentativa de promoção da cidadania, levando aos presos provisórios direitos e deveres fundamentais. No entanto, precisamos ficar atentos, pois qualquer alteração nas regras do jogo político acarreta conseqüências nem sempre desejáveis. O fato de que presos poderão votar levanta algumas questões importantes, não necessariamente previstas pela resolução do TSE, tais como: os presos terão acesso às informações sobre os candidatos? Esse número de “novos” eleitores é expressivo a ponto de influenciar o resultado da disputa? Os candidatos e marqueteiros estarão atentos ao novo contingente eleitoral, abarcando em suas plataformas e estratégias também os interesses dos presos provisórios? Creio que essas questões, ainda que cruciais para o funcionamento da democracia, não receberam o devido tratamento até então. As escolhas eleitorais – e isso embasa boa parte da crítica que fazemos aos eleitores brasileiros – necessitam, como condicionante básico, de boa informação. A cada eleição ouvimos analistas, a imprensa, líderes de movimentos sociais, a Igreja e outros, reafirmarem a falta de informação como um dos motivos para a recondução de políticos corruptos, envolvidos em escândalos ou mesmo omissos. Daí permanece a questão: os presos estarão bem informados? Certamente, a inclusão dessa parcela da população é positiva ao obrigar a política a refletir sobre os interesses e problemas da comunidade carcerária, historicamente submetida a um sistema de exclusão e alijada, antes mesmo da prisão, de direitos básicos da cidadania. Sem falar, é claro, da tentativa louvável do sistema prisional e da justiça de reformular suas práticas para recuperar pessoas e reinseri-las na sociedade. Porém, uma questão me incomoda: como ficará a autonomia da escolha, a liberdade do voto? Basta lembrarmos que nas últimas eleições o TSE impediu, para espanto dos desavisados, o uso de celulares nas cabines de votação. O motivo: chefes de milícias, em regiões onde a estado de direito é rarefeito e a lei vaga, anunciaram que obrigariam os eleitores a votar em seus candidatos, provando, sob pena de repressão, ter cumprido as ordem por meio de fotografias das urnas tiradas pelos celulares. A justiça impediu a entrada dos aparelhos visando conferir autonomia aos eleitores. E como fica a população carcerária? Todos têm notícia do que ocorre dentro das cadeias. Convido vocês a pensar a que sorte de perigos estarão sujeitos os presos se os criminosos que reinam dentro das prisões do país resolverem, sabe-se lá porque, obrigar o “novos” votantes a escolher seus candidatos. Tomara que a justiça eleitoral esteja atenta a isso e projeta também os eleitores encarcerados. Boa tarde a todos e até o Cena Política da semana que vem!

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sexta-feira, 9 de abril de 2010

Duas candidaturas? (Tribuna de Minas - Juiz de Fora)

Raul Francisco Magalhães - Cientista Político (UFJF)

É comum perceber no tratamento jornalístico das eleições e em vários analistas que publicam suas opiniões sobre a disputa de 2010 que estamos diante de apenas duas candidaturas que merecem ser consideradas para o debate. O problema não é novo, nem exclusivo do Brasil, onde há sempre candidatos trazendo temas para a arena política que são, porém, reduzidos pela mídia a um número menor, geralmente dois, que merecem a cobertura da imprensa e a atenção dos cientistas políticos.
No momento, temos a velha reedição de tese de que o Brasil tornou-se, na prática, um tipo de bipartidarismo, com o PT e PSDB aglutinando as forças capazes de dar forma ao país. Tudo mais é acessório, ou mesmo oportunismo de outros candidatos que usam a sua pequena parcela de aparição para viabilizar projetos pessoais. Penso que essa forma de ver a democracia, sobretudo de se analisar a disputa, é adequada apenas aos interesses dos partidos dominantes, além de empobrecedora da própria democracia brasileira.

O fato de haver posições minoritárias não significa que elas não sejam portadoras de virtudes públicas para a sociedade no sentido de que propõem alternativas fora do grande e falso consenso que nos manda resolver o Brasil com uma das duas grandes legendas. Isso é falso primeiramente porque o Brasil é, de fato, um pluripartidarismo na operação do dia a dia da política, nenhum partido governa sozinho, e também é falso na competição eleitoral: todos são obrigados a alianças se quiserem vencer. Além disso, é falso ainda se imaginarmos que a sociedade brasileira pode ser amplamente contemplada em duas legendas e que o debate sobre nosso destino prescinde de ideias novas, que hoje são pouco reverberadas pelo debate público, dominado pelos grandes atores e sancionado pela grande mídia. Em terceiro lugar, e no meu entender mais importante, essa perspectiva reducionista é normativamente falsa, quero dizer, é inadequado para qualquer democracia imaginar cenários nos quais as escolhas eleitorais tenham suas alternativas artificialmente reduzidas.

O contraexemplo da democracia na América do Norte merece ser lembrado: mesmo lá há quem atribua a disputa dicotômica entre republicanos e democratas a um arranjo que não contempla a diversidade do país, que vive sob o controle de um jogo histórico de grandes facções que comandam os dois partidos. Voltando ao Brasil, nossa democracia tem gerado um quadro complexo de questões e atores com posições importantes para um debate político produtivo, e penso que o eleitor e os analistas que tentam esclarecê-lo deveriam considerar mais perspectivas, tornando a reflexão sobre o momento realmente capaz de esclarecer as alternativas de voto.

Fonte: Jornal Tribuna de Minas - JF, seção opinião (publicado em 09/04/2010).

O artigo rebate o enquadramento dado por mim em texto publicado na mesma seção no dia 31/03/2010 e postado neste blog: Quem queima a largada... ganha!

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Ficha limpa: corrupção ou moralismo? (Coluna Cena Política - Rádio Catedral FM 102,3)

Olá, boa tarde! Ontem a Câmara dos Deputados decidiu, para a surpresa de poucos, adiar a votação do projeto de lei que torna inelegíveis candidatos condenados em primeira instância, desde que a decisão tenha sido tomada por um colegiado de juízes. Na prática, o projeto, fruto de uma iniciativa popular que já conta com mais de 1 milhão e meio de assinaturas, voltará para a Comissão de Constituição e Justiça para ser analisado e, só então, seguirá para votação o que pode inviabilizar sua implementação ainda este ano. Ao que tudo indica a proposta não valerá para as próximas eleições. Confesso não ser um entusiasta da chamada “ficha limpa”, muito mais pela ineficácia da proposta do que por sua intenção. Mesmo assim, a decisão de ontem ensejou declarações problemáticas e positivas, dos personagens menos esperados, que merecem alguns comentários. A bancada governista se opõe ao projeto pelo argumento mais óbvio, mas não menos relevante, que denuncia o ambiente político presente em alguns tribunais regionais, o que faria com que disputas eleitorais fossem impedidas por meio de decisões judiciais partidarizadas. Lembro os ouvintes que na história deste país a nomeação de juízes e delegados de policia já foi ponto de disputa política em diversas localidades, prerrogativa reivindicada pelos chefes políticos locais junto aos caciques estaduais e nacionais com o objetivo de manter sob seu controle cidades inteiras. Páginas nada honrosas da nossa história que chegaram aos nossos ouvidos por meios de expressões como coronelismo, voto de cabresto, dentre outras. Mas foi a declaração do deputado João Pizzolatti, para a surpresa de muitos do PP de SC, que mais me chamou a atenção. Alertando para a impotência do congresso ele disse: "Ou vamos fazer política, ou vamos fazer um projeto legal". Achei curioso, pois esse é precisamente o meu incômodo em relação ao projeto, ainda que eu tenha muitas reservas quanto ao deputado mencionado. Todos estão de acordo quando o assunto é combater a corrupção. Mais do que isso, o aparato punitivo tem respondido positivamente nos processos de cassação por compra de votos, por exemplo, ainda que tenhamos muito que melhorar. Preocupa-me, apenas, imaginar que o Congresso mais uma vez se esquiva de debates cruciais para o controle da corrupção, como financiamento de campanhas, e se prende em saídas midiáticas e, por que não, moralistas. Nenhuma reforma política será perfeita e mesmo a “ficha limpa” ainda dependerá de uma justiça honesta e eficaz. Por isso, é preciso que o eleitor se conscientize da importância do seu voto e puna candidatos ruins nas urnas. Também sou contra a corrupção, mas receio que a política nas mãos de juízes não seja necessariamente o melhor caminho. Boa tarde a todos e até o Cena Política da semana que vem!

A coluna
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quinta-feira, 1 de abril de 2010

A política como fabulação e fantasia - em homenagem a Gilberto Barbosa Salgado (Coluna Cena Política - Rádio Catedral FM 102,3)

Olá, boa tarde! Talvez o grande desafio daqueles que resolvem falar sobre política seja lidar com a história em movimento, lidar com o tempo presente. Vários foram os que ao longo dos anos nos alertaram para os perigos e armadilhas que só se tornam cristalinos quando olhamos para trás, como se os acontecimentos estivem sempre na espreita para surpreender mesmo os mais atentos. Quando tentamos entender a política a cobrança por essa visão de longo prazo se impõe, tornando os acontecimentos cada vez mais pesados, dotando a história de uma densidade inconteste. Bom seria se pudéssemos sempre olhar para trás, ainda que isso aceite, também, seus erros, mas ao menos nos enganaríamos com a aparente neutralidade daqueles que falam sem envolvimento. Melhor seria, quem sabe, se a ciência política fosse uma ciência exata, onde equações simples encontram respostas óbvias. Eu acho que não! A beleza da política sempre foi a imprecisão, sempre foi falar sobre algo que pode ser melhor, de um mundo que mesmo não existindo pode animar seres de carne e osso a viver por um futuro melhor. Que triste seria a vida organizada na falta da imaginação; que triste é a vida dos que acreditam que a verdade fala por si só, como se os homens não tivessem suas vontades, suas opiniões. Ainda que precisemos discutir coisas práticas, como reforma política, projeto ficha limpa, controle da corrupção, torço para que nunca aceitemos essas coisas como naturais, como verdades dadas que tiram de nós o poder de transformar a vida para melhor.

Peço licença aos ouvintes para dedicar esta coluna a Gilberto Barbosa Salgado. Professor, amigo, incentivo profissional e intelectual, alguém que aceitava o desafio de falar do mundo como fabulação e fantasia. Em sua memória, ofereço. Boa tarde a todos e até o Cena Política da semana que vem!

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