quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Democracia plebiscitária? (Coluna Cena Política - Rádio Catedral FM 102,3)

Olá, boa tarde! Pode parecer implicância, mas concordo com a grande maioria dos analistas que afirma ser esta eleição uma das piores vistas nos últimos anos. Seguramente, o processo em curso atesta muitas conquistas e não podemos ignorá-las. Falo da regularização das disputas, com trocas periódicas de poder sem maiores traumas; do incremento dos instrumentos de votação, como a urna eletrônica, com promessa de voto biométrico inclusive, comprova; do surgimento de uma imprensa livre e plural, para o que concorre o feliz aparecimento da internet como mecanismo de propagação de mensagens para além do estreitamento que os tradicionais veículos de comunicação promoviam; da presença do Judiciário, em muitos casos virtuosa, mesmo que não possa ser compreendida como o último recurso no mundo da política; falo de uma democracia que não parece estar institucionalmente abalada, ainda que um retorno ao que há de ruim no passado ecloda, por vezes, nos discursos eleitorais do presente. É incômodo observar que depois de algumas eleições ainda constatemos pouca consolidação da cultura cívica e compreensão dos processos democráticos, como a pauta do segundo turno das eleições presidenciais vem demonstrando. Cobra-se dos candidatos à presidência que temas de natureza moral sejam assegurados, já nas campanhas, sob pena de perderem valiosos votos numa disputa que agora parece apertada, como se Dilma ou Serra fossem poderosos “príncipes” que quando no poder resolverão, a despeito das regras do jogo democrático, todos os problemas da sociedade brasileira segundo sua vontade e compromissos de campanha. Sinto em dizer ao eleitor desavisado que não é assim, para o bem, que a democracia brasileira funciona. Todas as questões que por ventura venham a ocupar a agenda pública do próximo governo serão debatidas segundo os trâmites constitucionais, obedecendo à lógica democrática de tramitação das discussões em benefício de um enriquecimento do debate. Ilude-se o eleitor que acredita ser o presidente um ente todo poderoso que decide a despeito da existência dos demais Poderes da República – Câmara, Senado, Judiciário e seus Tribunais. Felizmente não é assim! E o problema de se pensar e agir assim num processo eleitoral é precisamente perder o correto ou esperado sentido das eleições numa democracia: refletir sobre os reais problemas da sociedade brasileira de forma madura e não plebiscitária, como se o destino do país pudesse ser resumido a uma disputa entre o bem o mal. Creio que o Brasil é bem maior do que isso! Boa tarde a todos e até o Cena Política da semana que vem!
A coluna Cena Política vai ao ar todas as quintas (por volta das 14:30h), na Rádio Catedral FM 102,3.

2 comentários:

Robson Rocha disse...

Perfeito Diogo. Incomoda ver que mais uma vez estamos caindo nos temas religiosos e, o que é pior, que ainda mantemos nossa crença de que o Presidente pode, ou resolver tudo, ou acabar com tudo, o que mais uma vez comprova apenas que o Poder legislativo, que Locke já apontara como a expressão mesma dos interesses do povo, não possui o poder e representatividade que uma democracia exige. Será que, por isso, fenômenos como Tirica, Maluf e tantos outros ainda são recorrentes? Apenas apontaria para um fator - que eu tenho certeza que você não desconsidera, mesmo que com esta repetição eu me torne chato: a sociedade civil. Quando deixaremos de ser apenas o Povo brasileiro e nos tornaremos, enfim, uma sociedade civil efetiva e significativamente organizada? Não será que a política mesma só vai se transformar de verdade quando isso for possível?
Mas, ao mesmo tempo, parece que estamos tão longe disso....
A princípio, pelo menos, temos o alento dos votos e da institucionalização já consolidada do jogo político. Mas será que não é mesmo essa institucionalização, da forma como foi levada a efeito, que hoje impede qualquer tipo de transformação? Não que ela seja equivocada e precise ser jogada no lixo, mas me parece mesmo que uma reforma Política profunda é a exigência máxima dessa nação. E quem, a não ser a própria sociedade civil, poderá mudar essa situação e exigir de seus representantes tal reforma?

Diogo Tourino de Sousa disse...

Caro Robson, grato pela leitura e pelos comentários, mais uma vez. Concordo com você e talvez Marina Silva tenha sido a única candidata a mencionar, mesmo que de forma incipiente, o tema do Estado "tutor" e não "mobilizador" da sociedade como o problema do Brasil. A questão retorna agora no estreitamento do discurso, que empareda os candidatos e enfraquece a capacidade da sociedade enriquecer o debate. Pena...