sexta-feira, 20 de julho de 2012

Piada (ou "paixão") nacional? (Coluna Cena Política - Rádio Catedral FM 102,3)

Esta semana ouvi uma afirmação, vinda de um importante ator da televisão brasileira, que dizia, talvez em tom de autocrítica, “nem tudo o que a sociedade demanda é saudável para ela”. O assunto era outro, mas quando abro as páginas do jornal pela manhã me deparo com duas manchetes curiosas abrigadas na mesma seção: política. A primeira trazia a fanfarronice já notória de Roberto Jefferson, presidente nacional do PTB e um habitue nos escândalos políticos, que alardeava a segurança da sua não condenação no julgamento do esquema de compra de apoios parlamentares, conhecido como mensalão. Jefferson foi, à época, apontado como um dos principais operadores do esquema, ao lado do ex-chefe da Casa Civil, José Dirceu, ambos cassados ainda no primeiro mandato do governo Lula, em 2005. A segunda manchete que me chamou a atenção, dizia que a CPI do Cachoeira, que na minha opinião ainda nada fez de útil, já tem uma musa. Intitulada o “Furacão da CPI”, a matéria discutia o futuro da assessora parlamentar do senador Ciro Nogueira (PP-PI), a advogada Denise Leitão Rocha, protagonista de um vídeo com cenas íntimas que já circula na internet. Aliás, agora só se fala nisso, até que outra bobagem qualquer que diga respeito à vida íntima de alguém famoso ou não, ocupe os noticiários nacionais. Que demanda é essa, aproveitando a afirmação com a qual comecei essa conversa, nada saudável para a sociedade brasileira? Na semana seguinte à cassação de Demóstenes Torres, em meio a um turbilhão de suspeitas sobre negócios nada republicanos firmados entre o poder público e empreiteiras, onde um bicheiro, que já se mostrou capaz de tragar para a ilegalidade mais gente do que supúnhamos, defendido habilmente por um ex-ministro da Justiça, voltamos nossos olhares para a vida privada de uma assessora parlamentar, que caiu na infelicidade de ser filmada em cenas íntimas, numa era de pouca privacidade. Agora se discute um possível caso dela com o deputado Romário (PSB-RJ), ou mesmo a existência de um harém montado por Ciro Nogueira em seu gabinete. Do que mesmo falávamos? Ah, é verdade, sobre corrupção na máquina pública, problema apontado por quase todos os brasileiros como o nosso grande mal. Paradoxo interessante: a sociedade parece saber quais são os seus desafios, mas continua a demandar deleites nada “saudáveis”, para recuperar a afirmação inicial, não sem polêmica, claro. Repentinamente é melhor devassar a vida íntima de uma mulher que há pouco nem sabíamos que existia, e que agora divide as manchetes sobre política com o deboche de Roberto Jefferson sobre a possibilidade de ser ele condenado no Supremo, ofuscando, ainda mais, uma Comissão Parlamentar de Inquérito que transparece aquilo que julgamos ser o nosso problema. Suspeito de vários enganos. Mas conservo a vaga impressão de que enquanto publicizarmos tudo, mesmo a intimidade, mas, sobretudo a corrupção, sem punir ninguém, permaneceremos com a desconfortável sensação de piada que paira sobre a política nacional. Ou seria paixão nacional que paira sobre a piada da política? Vai saber. 

A coluna Cena Política vai ao ar todas as sextas (no jornal das 8h), na Rádio Catedral FM 102,3

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