sexta-feira, 9 de abril de 2010

Duas candidaturas? (Tribuna de Minas - Juiz de Fora)

Raul Francisco Magalhães - Cientista Político (UFJF)

É comum perceber no tratamento jornalístico das eleições e em vários analistas que publicam suas opiniões sobre a disputa de 2010 que estamos diante de apenas duas candidaturas que merecem ser consideradas para o debate. O problema não é novo, nem exclusivo do Brasil, onde há sempre candidatos trazendo temas para a arena política que são, porém, reduzidos pela mídia a um número menor, geralmente dois, que merecem a cobertura da imprensa e a atenção dos cientistas políticos.
No momento, temos a velha reedição de tese de que o Brasil tornou-se, na prática, um tipo de bipartidarismo, com o PT e PSDB aglutinando as forças capazes de dar forma ao país. Tudo mais é acessório, ou mesmo oportunismo de outros candidatos que usam a sua pequena parcela de aparição para viabilizar projetos pessoais. Penso que essa forma de ver a democracia, sobretudo de se analisar a disputa, é adequada apenas aos interesses dos partidos dominantes, além de empobrecedora da própria democracia brasileira.

O fato de haver posições minoritárias não significa que elas não sejam portadoras de virtudes públicas para a sociedade no sentido de que propõem alternativas fora do grande e falso consenso que nos manda resolver o Brasil com uma das duas grandes legendas. Isso é falso primeiramente porque o Brasil é, de fato, um pluripartidarismo na operação do dia a dia da política, nenhum partido governa sozinho, e também é falso na competição eleitoral: todos são obrigados a alianças se quiserem vencer. Além disso, é falso ainda se imaginarmos que a sociedade brasileira pode ser amplamente contemplada em duas legendas e que o debate sobre nosso destino prescinde de ideias novas, que hoje são pouco reverberadas pelo debate público, dominado pelos grandes atores e sancionado pela grande mídia. Em terceiro lugar, e no meu entender mais importante, essa perspectiva reducionista é normativamente falsa, quero dizer, é inadequado para qualquer democracia imaginar cenários nos quais as escolhas eleitorais tenham suas alternativas artificialmente reduzidas.

O contraexemplo da democracia na América do Norte merece ser lembrado: mesmo lá há quem atribua a disputa dicotômica entre republicanos e democratas a um arranjo que não contempla a diversidade do país, que vive sob o controle de um jogo histórico de grandes facções que comandam os dois partidos. Voltando ao Brasil, nossa democracia tem gerado um quadro complexo de questões e atores com posições importantes para um debate político produtivo, e penso que o eleitor e os analistas que tentam esclarecê-lo deveriam considerar mais perspectivas, tornando a reflexão sobre o momento realmente capaz de esclarecer as alternativas de voto.

Fonte: Jornal Tribuna de Minas - JF, seção opinião (publicado em 09/04/2010).

O artigo rebate o enquadramento dado por mim em texto publicado na mesma seção no dia 31/03/2010 e postado neste blog: Quem queima a largada... ganha!

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Ficha limpa: corrupção ou moralismo? (Coluna Cena Política - Rádio Catedral FM 102,3)

Olá, boa tarde! Ontem a Câmara dos Deputados decidiu, para a surpresa de poucos, adiar a votação do projeto de lei que torna inelegíveis candidatos condenados em primeira instância, desde que a decisão tenha sido tomada por um colegiado de juízes. Na prática, o projeto, fruto de uma iniciativa popular que já conta com mais de 1 milhão e meio de assinaturas, voltará para a Comissão de Constituição e Justiça para ser analisado e, só então, seguirá para votação o que pode inviabilizar sua implementação ainda este ano. Ao que tudo indica a proposta não valerá para as próximas eleições. Confesso não ser um entusiasta da chamada “ficha limpa”, muito mais pela ineficácia da proposta do que por sua intenção. Mesmo assim, a decisão de ontem ensejou declarações problemáticas e positivas, dos personagens menos esperados, que merecem alguns comentários. A bancada governista se opõe ao projeto pelo argumento mais óbvio, mas não menos relevante, que denuncia o ambiente político presente em alguns tribunais regionais, o que faria com que disputas eleitorais fossem impedidas por meio de decisões judiciais partidarizadas. Lembro os ouvintes que na história deste país a nomeação de juízes e delegados de policia já foi ponto de disputa política em diversas localidades, prerrogativa reivindicada pelos chefes políticos locais junto aos caciques estaduais e nacionais com o objetivo de manter sob seu controle cidades inteiras. Páginas nada honrosas da nossa história que chegaram aos nossos ouvidos por meios de expressões como coronelismo, voto de cabresto, dentre outras. Mas foi a declaração do deputado João Pizzolatti, para a surpresa de muitos do PP de SC, que mais me chamou a atenção. Alertando para a impotência do congresso ele disse: "Ou vamos fazer política, ou vamos fazer um projeto legal". Achei curioso, pois esse é precisamente o meu incômodo em relação ao projeto, ainda que eu tenha muitas reservas quanto ao deputado mencionado. Todos estão de acordo quando o assunto é combater a corrupção. Mais do que isso, o aparato punitivo tem respondido positivamente nos processos de cassação por compra de votos, por exemplo, ainda que tenhamos muito que melhorar. Preocupa-me, apenas, imaginar que o Congresso mais uma vez se esquiva de debates cruciais para o controle da corrupção, como financiamento de campanhas, e se prende em saídas midiáticas e, por que não, moralistas. Nenhuma reforma política será perfeita e mesmo a “ficha limpa” ainda dependerá de uma justiça honesta e eficaz. Por isso, é preciso que o eleitor se conscientize da importância do seu voto e puna candidatos ruins nas urnas. Também sou contra a corrupção, mas receio que a política nas mãos de juízes não seja necessariamente o melhor caminho. Boa tarde a todos e até o Cena Política da semana que vem!

A coluna
Cena Política vai ao ar todas as quitas (por volta das 14:30h), na Rádio Catedral FM 102,3.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

A política como fabulação e fantasia - em homenagem a Gilberto Barbosa Salgado (Coluna Cena Política - Rádio Catedral FM 102,3)

Olá, boa tarde! Talvez o grande desafio daqueles que resolvem falar sobre política seja lidar com a história em movimento, lidar com o tempo presente. Vários foram os que ao longo dos anos nos alertaram para os perigos e armadilhas que só se tornam cristalinos quando olhamos para trás, como se os acontecimentos estivem sempre na espreita para surpreender mesmo os mais atentos. Quando tentamos entender a política a cobrança por essa visão de longo prazo se impõe, tornando os acontecimentos cada vez mais pesados, dotando a história de uma densidade inconteste. Bom seria se pudéssemos sempre olhar para trás, ainda que isso aceite, também, seus erros, mas ao menos nos enganaríamos com a aparente neutralidade daqueles que falam sem envolvimento. Melhor seria, quem sabe, se a ciência política fosse uma ciência exata, onde equações simples encontram respostas óbvias. Eu acho que não! A beleza da política sempre foi a imprecisão, sempre foi falar sobre algo que pode ser melhor, de um mundo que mesmo não existindo pode animar seres de carne e osso a viver por um futuro melhor. Que triste seria a vida organizada na falta da imaginação; que triste é a vida dos que acreditam que a verdade fala por si só, como se os homens não tivessem suas vontades, suas opiniões. Ainda que precisemos discutir coisas práticas, como reforma política, projeto ficha limpa, controle da corrupção, torço para que nunca aceitemos essas coisas como naturais, como verdades dadas que tiram de nós o poder de transformar a vida para melhor.

Peço licença aos ouvintes para dedicar esta coluna a Gilberto Barbosa Salgado. Professor, amigo, incentivo profissional e intelectual, alguém que aceitava o desafio de falar do mundo como fabulação e fantasia. Em sua memória, ofereço. Boa tarde a todos e até o Cena Política da semana que vem!

A coluna Cena Política vai ao ar todas as quitas (por volta das 14:30h), na Rádio Catedral FM 102,3.

quinta-feira, 25 de março de 2010

O papel republicano da representação (Coluna Cena Política - Rádio Catedral FM 102,3)

Olá, boa tarde! O suposto excesso de candidatos na cidade de Juiz de Fora previsto para o próximo pleito eleitoral ganhou os noticiários na semana passada. Pelas contas, os 23 partidos com representação na cidade pretendem, até o momento, lançar algo em torno de 57 candidaturas, incluindo postulantes ao cargo de deputados estadual e federal e senador. A primeira impressão é comum, mesmo entre os analistas: candidatos em demasia disputarão a mesma fatia do eleitorado e podem, no limite, enfraquecer a representação da cidade nas esferas políticas estadual e federal. Entretanto, essa “impressão” carrega consigo uma série de afirmações problemáticas e que demandam maior atenção quanto ao modo como avaliam a representatividade de Juiz de Fora nas últimas legislaturas, ou mesmo a própria idéia de representação política nas democracias contemporâneas. Por um lado, a cidade tem obtido sucesso nas últimas disputas, emplacando nomes locais na Assembléia de Minas e na Câmara Federal, uma média de quatro deputados em cada casa, como bem chamou a atenção o professor Marcelo Dulci da Universidade Federal de Juiz de Fora, avaliação seguramente contrária à maioria das lideranças locais. Por outro, o modo como tal discussão concebe a idéia de representação traduz, talvez, certa confusão quanto ao papel republicano dos parlamentares, reforçada, inclusive, pelo mau desempenho da maioria dos eleitos. É curioso notarmos que na cabeça do eleitorado subsiste a crença de que apenas elegendo o “meu” deputado terei os “meus” interesses defendidos, o que pode, sem medo do exagero, ser traduzido na idéia de que os serviços mínimos e de concessão obrigatória para a garantia da dignidade da população – escola, saúde, saneamento básico, segurança, dentre outros – dependem necessariamente do sucesso de deputados da cidade e região. Sem inocência alguma, todos nós sabemos que é assim que as coisas são. Mas a política, a boa política, nunca foi prisioneira dos fatos e sempre sem preocupou mais com o que o mundo deveria ser do que propriamente com o que o mundo é. Constatar que hoje dependemos da eleição de candidatos da cidade e região para que a cidade e a região sejam atendidas pelas políticas públicas de que somos carentes, não nos impede de problematizar tal prática em nome do bom exercício republicano: se ocupar da coisa pública. Ainda que a cidade tenha muitos candidatos e eleja poucos deles isso não pode, em momento algum, se apresentar como empecilho para sejamos contemplados com que precisamos. Afinal, as disputas na democracia devem produzir bons resultados e não cisões. Torço para que a política se preocupe com todos e não apenas com os seus. Boa tarde a todos e até o Cena Política da semana que vem!

A coluna Cena Política vai ao ar todas a quitas (por volta das 14:30h), na Rádio Catedral FM 102,3.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Quem queima a largada... ganha! (Coluna Cena Política - Rádio Catedral FM 102,3)

Olá, boa tarde! Nos últimos meses temos ouvido inúmeras críticas ao modo como o presidente Lula vem conduzindo a campanha, ou pré-campanha, da sua candidata, a ministra Dilma Rousseff. A oposição e grande parte da impressa acusam ambos de antecipar o início da “propaganda”, tendo Dilma participado da grande maioria das viagens do presidente em inaugurações pelo Brasil e eventos internacionais, prática que desrespeita as leis eleitorais em vigor. Certamente, ignorar as regras do jogo em benefício próprio não configura, de longe, uma prática republicana saudável. No entanto, mais do que a leitura formal do que vem acontecendo no cenário eleitoral, há um elemento substantivo que bem traduz o que se passa por trás do “choro”, sem me posicionar em lado algum, dos “críticos”: o imobilismo da oposição. Não é de hoje que campanhas começam antes do período eleitoral regulamentar e com isso não quero, em momento algum, defender ações irregulares. Chamo a atenção apenas para o fato de que outro motivo que não o purismo e o zelo exemplar pela legislação eleitoral pode explicar porque as demais campanhas ainda não começaram a “aparecer”. Incrivelmente parece que só Lula tem um projeto, o de eleger Dilma, concomitante ao imobilismo das demais candidaturas que se debatem em torno de críticas descabidas, vitupérios, contanto, é claro, com um setor da imprensa ávido em manchetes explosivas para sobreviver. E quando se discute política? Nunca! A culpa disso é apenas do presidente e de sua “eleita”? Seguramente, não! O projeto governista que vem desfilando pelo país em inaugurações e coisas do gênero graça na medida em que conta com uma pane de propostas, projetos, uma pane de política. Num país onde é difícil se apresentar como continuidade, estruturando quase sempre campanhas eleitorais em torno da bandeira da mudança e da cega negação do passado, hoje parecer ser esta a principal arma para se eleger, arma essa vetada aos que não fazem parte do governo. Não sou o primeiro e nem serei o último a dizer isso: ou a oposição formula um projeto que passe ao largo de acusações que só servem pra vender jornal, imaginando um Brasil que não pode esquecer seu passado para andar para frente, ou Dilma, mesmo ela, ganhará. Como em política as coisas geralmente são diferentes, podemos dizer que aqui quem queima a largada na corrida... ganha! Boa tarde a todos e até o Cena Política da semana que vem!
A coluna Cena Política vai ao ar todas as quintas (por volta das 14:30h), na Rádio Catedral FM 102,3.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Eleições 2010 - parte 01 (Coluna Cena Política - Rádio Catedral FM 102,3)

Olá, boa tarde! Em outubro de 2010 cerca de 130 milhões de brasileiros irão às urnas escolher seus representantes. O processo eleitoral, que para nós se confunde com a própria idéia de democracia, é um dos mecanismos pelos quais o cidadão brasileiro exerce o poder no país, conforme definido na Constituição Federal. Ainda que no cotidiano a grande maioria dos brasileiros não se envolvam com a política, as eleições afiguram-se como a chance de fazer valer o que entendemos como certo e errado, colocando em movimento a luta e a efetivação dos nossos direitos. Este ano estarão em disputa os cargos dos legislativos estaduais e distrital, a renovação de 2/3 do Senado Federal, o governo dos estados e do Distrito Federal e a presidência da República. É de suma importância que a população atente para a possibilidade de pautar a própria vida, fazendo uso das conquistas que a consolidação da democracia entre nós promoveu. As rádios, jornais, associações de bairro, sindicatos, entidades representativas em geral, a igreja, as escolas, os partidos políticos, por que não, são todos canais através dos quais a sociedade pode canalizar suas demandas com o objetivo de fazer com que as eleições de 2010 não sejam apenas uma formalidade na troca dos representantes, mas sim o momento no qual as demandas concretas da vida se expressem. Habitação, saneamento, educação, segurança pública, lazer, temas polêmicos como cotas raciais para ingresso nas instituições de ensino e a diminuição do preconceito, homofobia, são exemplos de como a população tem problemas que em muito se distanciam do que costumeiramente observamos nos meios de comunicação sobre política. Sem dúvida o período eleitoral é o momento ideal para fazer com que a política saia de uma agenda perversa, marcada pela corrupção, ou mesmo de uma agenda menor, ocupada em lotear a máquina pública com aliados e pouco atenta aos anseios da sociedade, e entre, efetivamente, numa discussão maior sobre o que o Brasil precisa para superar seus desafios. Encaremos com bons olhos as eleições que se aproximam. Boa tarde a todos e até o Cena Política da semana que vem!
A coluna Cena Política vai ao ar todas as quintas (por volta das 14:30h) na Rádio Catedral FM 102,3.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O PT faz trinta anos (Coluna Cena Política - Rádio Catedral FM 102,3)

Olá, boa tarde! O congresso do Partido dos Trabalhadores deste ano teve uma comemoração especial: os 30 anos do partido. Cercado de polêmica acerca da candidatura de Dilma Rousseff à presidência, as tendências que hoje integram a legenda se dividem entre a importância histórica do PT no processo de democratização do Brasil e o pragmatismo necessário ao exercício do governo, conforme defesa de José Eduardo Dutra, presidente recém-empossado. Certamente, dos anos 1980 para cá muita coisa mudou: o muro caiu, o país testemunhou a primeira eleição direta depois de duas décadas, assistiu o impedimento do presidente eleito, consolidou suas instituições com a Carta Constitucional de 1988, elegeu um intelectual paulista para presidente e até, como prova da solidez da democracia entre nós, foi capaz de alçar ao cargo máximo do executivo um operário de origem pobre. Esse, talvez, o marco maior da mudança, não só no PT, mas no cenário político nacional como um todo. Uma rápida recordação dos episódios que sucederam a chegada de Lula à presidência nos mostra como o partido sofreu para governar – com efetivos sucessos, diga-se de passagem – sendo, por vezes, obrigado a cortar na própria carne. Ainda assim, o escândalo do “mensalão”, que custou a saída de José Dirceu, militante histórico, bem como a formação de outras legendas e a desfiliação de quadros antigos – Marina Silva (PV) é a perda mais sentida nos últimos meses –, não foi capaz de abalar o prestígio do presidente e sua capacidade de comandar a sigla em mais uma disputa. O recente congresso, que lançou Dilma e as diretrizes no ano eleitoral que não terá Lula como candidato, cobra um olhar especial. Emitir juízos sobre a história recente é tarefa demasiado complicada, ainda mais se os atores em questão são concretos, como é o caso de Lula e do PT. Ainda assim, me permito dizer uma coisa: a despeito dos fatos, há uma verdade acerca do partido e de seu principal nome que não pode ser desrespeitada e que resultou na democracia em que hoje vivemos. Com isso não digo que o PT deva ser eternizado no poder, nem ao menos que Lula seja uma figura impoluta. Digo apenas que o ano 2010 não verá somente uma eleição disputada pelos dois principais atores do quadro partidário nacional, mas também a celebração do que chamamos, com ou sem propriedade, de democracia: o surgimento de uma imprensa livre, a manifestação de uma oposição, o protesto da sociedade, um partido de esquerda fez trinta anos. Que a história nos ensine também coisas boas. Boa tarde a todos e até o Cena Política da semana que vem!
A coluna Cena Política vai ao ar todas as quintas (por volta das 14:30h) na Rádio Catedral FM 102,3.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Uma ausência percebida na Sapucaí (Coluna Cena Política - Rádio Catedral FM 102,3)

Olá, boa tarde! Na quarta-feira de cinzas deste ano não vimos apenas a surpreendente vitória do Botafogo sobre o Flamengo, nem a tão esperada conquista do carnavalesco Paulo Barros, pela Unidos da Tijuca, depois de tantos anos inovando. Felicidade ou não, outra comemoração se justificou por uma ausência na Marquês de Sapucaí: a do governador José Roberto Arruda (DEM), que viu, presume-se, a homenagem da Beija Flor de Nilópolis a Brasília da cela onde cumpre prisão preventiva desde o final da semana passada. Homenagem esta, aliás, financiada pelo governo do Distrito Federal e que contaria, até então, com a presença de Arruda no desfile, sem qualquer menção à política e é bom que isso fique claro. Mas como o destino é farto em nos pregar peças, a “comemorada” prisão do governador não passou despercebida nem nos desfiles, sendo matéria de todos os jornais nos últimos dias. Não é pra menos. Venho comentando a singularidade dos acontecimentos no DF desde o aparecimento do então apelidado “mensalão do Democratas”, triste com a constatação da mais um caso de corrupção na política brasileira, mas satisfeito com o que o episódio nos mostrou de evolução: a atuação de uma imprensa livre para desmontar esquemas que antes habitavam o desconhecimento; uma sociedade civil pujante que não se aquietou diante das tentativas habituais de tratamento do caso como rotineiro; uma justiça disposta a dar respostas ao que até então era silenciado. Resultado: Arruda está preso! O diagnóstico dos analistas é consensual em afirmar que ele fez exatamente o que não poderia ser feito ao tentar atrapalhar o andamento das investigações. Caso se mantivesse passivo tal como o seu antecessor e “padrinho” político, Joaquim Roriz (PSC), nome corrente em escândalos e que agora volta, pena, a ser cogitado como candidato ao governo do DF mesmo tendo renunciado ao mandato de senador para evitar cassação, teria passado ileso ao que ele vem chamando de “perseguição”. Talvez. Isso porque, tal como venho comentando nesta coluna, o episódio recente assinalou conquistas e longe de tratar o tema da corrupção de forma moralista, foi bom que Arruda tenha sido e esteja preso. De alguma forma, a prisão do governador reforça a tão abalada confia do povo em suas instituições, reata, num certo sentido, seu afeto com a política. Arruda ainda não foi condenado, terá chance de se defender, o que não envolve coagir testemunhas. Ainda assim, o carnaval nos trouxe, como quase sempre faz, um alento. Não paremos por aí. Boa tarde a todos e até o Cena Política da semana que vem!
A coluna Cena Política vai ao ar todas as quintas (por volta das 14:30h) na Rádio Catedral FM 102,3.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Quando FHC fala dos outros falando dele (Coluna Cena Política - Rádio Catedral FM 102,3)

Olá, boa tarde! A semana que antecede o carnaval começou, no domingo, marcada não apenas pelas festividades costumeiras, mas também por uma nova intervenção pública do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) nos jornais de grande circulação do país. Trata-se do artigo de sua autoria, intitulado “Sem medo do passado”, onde ele faz o que até agora parecia que ninguém teria coragem de fazer: defender seus oito anos de governo. Não que eu considere tal defesa totalmente impossível. Mas diante da popularidade do presidente Lula, alimentada pelo inequívoco sucesso do seu governo em diversos setores, contexto que permite com que Lula repita, sem medo, “nunca antes na história deste país” mesmo quando o assunto é o combate à corrupção de seus próprios correligionários, defender o período tucano que antecedeu a chegada do Partido dos Trabalhadores ao poder tornou-se tarefa inglória. Ao que parece, não para Fernando Henrique. Quando li o artigo minha maior expectativa era com relação aos seus desdobramentos, especialmente no modo como o próprio autor se comportaria diante da reação do governo. Isso porque, da última vez que FHC opinou neste cenário que pode, sem medo, ser classificado como eleitoral, com o artigo “Para onde vamos?” publicado em novembro e comentado nesta coluna, ele se defendeu dizendo ser um intelectual isento e livre para manifestações sobre a conjuntura nacional. Não é bem assim e acho que no recente posicionamento do ex-presidente podemos enxergar uma virtude até então ausente: a coragem. De fato, até o presente ninguém havia abertamente aceitado a “armadilha” que o presidente Lula e os articuladores da campanha de Dilma Rousseff à presidência supostamente preparavam, resumindo as eleições de 2010 a um plebiscito do atual governo, o que para a maioria dos especialistas significaria uma derrota acachapante do PSDB no pleito. Pelo visto o silêncio tucano incomodou o ex-presidente, enquadrado pela crítica como o protagonista da “era neoliberal”, que prescindindo de qualquer autorização fez o óbvio: se defendeu. Ainda que os caciques tucanos não assumam, a postura tomada por FHC pode ter agradado ao presidente Lula que vem forçando tal comparação, até então num monólogo. Se Dilma colherá os frutos só saberemos em outubro. Mas uma coisa é certa: Lula encontrou um interlocutor e nós ganhamos com isso, concordando ou não com as partes em disputa. É bom que o debate eleitoral se qualifique e ao assumir a postura de ator Fernando Henrique deixa, sem medo, claro quem ele é. Boa tarde a todos e até o Cena Política da semana que vem!
A coluna Cena Política vai ao ar todas as quintas (por volta das 14:30h) na Rádio Catedral FM 102,3.
Para ler o artigo "Sem medo do passado", de Fernando Henrique Cardoso (puclicado no jornal O Globo em 07 de fevereiro de 2010), clique aqui;
Para ler o artigo "Para onde vamos?", de Fernando Henrique Cardoso (publicado no jornal O Globo em 01 de novembro de 2009), clique aqui;
Para ler a coluna Cena Política "As regras estão estabelecidas, mas o jogo ainda será jogado", que comenta o artigo e a reação de Fernando Henrique (publicada neste blog em 12 de novembro de 2009 e no jornal Tribuna de Minas - JF em 13 de novembro de 2009), clique aqui.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A política e o seu lugar (Coluna Cena Política - Rádio Catedral FM 102,3)

Olá, boa tarde! A novela que acompanha a discussão do projeto “ficha limpa”, que torna inelegíveis pessoas que respondem a processos na Justiça, está cada vez mais distante do fim. O que é bom e ruim. Digo isso, porque se a corrupção é um mal que devemos combater, eu particularmente não considero o projeto em questão a melhor alternativa para alcançarmos uma vida republicana saudável. Sei que essa é uma posição perigosa, até porque os defensores do projeto atendem aos apelos da opinião pública em seus anseios mais moralistas, encontrando os culpados pelo mal, e ao mesmo tempo quem irá nos redimir. Por um lado, os meios de comunicação bombardeiam a sociedade com periódicos escândalos de corrupção, sempre recheados com alta qualidade de som e imagem, mostrando como os responsáveis pelo problema, quase sempre homens da política e empresários inescrupulosos, não se movem para resolvê-lo, contando, ainda, com a conivência de “colegas” que preferem fazer “vista grossa”. O recente caso da eleição do presidente da Câmara do DF serve bem de exemplo: por meio de um consenso não se sabe com base em quê, um partidário de Arruda foi alçado ao posto para evitar que o governador sofra danos maiores; por outro lado, novos atores da vida democrática, falo especialmente dos operadores do direito e suas entidades representativas – como a Associação dos Magistrados Brasileiros, o Ministério Público e seu movimento de democratização –, apresentam-se para a sociedade como figuras idôneas, livres de qualquer imperfeição cotidiana, presentes, vale ressaltar, na política. Na mesma semana em que a Câmara Federal não conseguiu dar andamento ao projeto “ficha limpa”, Gilmar Mendes, presidente do STF, compareceu a cerimônia de abertura dos trabalhos legislativos e reafirmou que a Justiça no país é, digamos, quase “divina”, ainda que conviva com uma lentidão “pontual”. É fácil enxergarmos o saldo final: políticos não prestam e deveriam, como os homens da Justiça sugerem, ir para a cadeia. O problema é que essa não é uma matemática simples. A Justiça também tem os seus problemas e o excesso de demanda criado em cima da sua crescente visibilidade não pode ser ignorado. A cada dia aumenta o número de processos sobre temas polêmicos e seguramente decisões administrativas não são o melhor caminho para incrementarmos os valores democráticos. A política é o caminho! Mas por que a sociedade pensa exatamente o contrário? Acredito que o motivo é bem representado pela discussão em torno da “ficha limpa”: ao invés de propor mudanças substantivas para controlar a corrupção desde o processo eleitoral, como a discussão do financiamento de campanha para impedir a entrada irrestrita de dinheiro e empresários nas eleições, os parlamentares preferem revolver assuntos inócuos, declinando do seu papel republicano. Sobra para o Judiciário. Ou a política assume o seu lugar, ou a sociedade continuará achando que ela não serve para nada. Boa tarde a todos e até o Cena Política da semana que vem!
A coluna Cena Política vai ao ar todas as quintas (por volta das 14:30h) na Rádio Catedral FM 102,3.