sexta-feira, 11 de julho de 2014

Sete questões e um post-scriptum.



Conversando com um amigo querido, jornalista virtuoso e divertido, um dia após o vareio de bola que o Brasil levou da Alemanha, entoava a ele um mantra: “a Copa tem um legado...” Sem que eu tivesse tempo para me explicar, ele retrucou: “tomara que esse legado seja algo mais do que a fatura do meu cartão de crédito”. Ele, arguto nas coisas do futebol, havia passado os últimos dias em “turnê” pela Copa, atrás da Seleção, e agora receava o preço a pagar. Eu, que logo depois do jogo já aventava minhas hipóteses, precisava de só mais algumas horas para elaborar meu luto em texto.

Muito já se escreveu, tripudiou e teorizou. Da minha parte, não vou “chutar cachorro morto”, e longe de mim querer ser o primeiro “rato” e fugir de um navio que caminha com todo vapor ao naufrágio – como fez o agente do Neymar, por exemplo. Mas tenho lá minhas questões e, porquê não, um post-scriptum honroso sobre o que defendo ser o “legado da Copa” (sem qualquer conotação político-partidária... pelo menos ainda).

1. (Thomas Müller, 11min.) Foi a maior derrota da Seleção Brasileira, o que não significa que será a última. O jogo escancara uma mentira há muito bem contatada – por mim, inclusive –, e que agora não mais se sustenta. Desde a escolha de Felipão – mais ele do que Parreira, claro –, a CBF começou a contar uma mentira que aceitamos e repetimos. Uma escolha segura – dois ex-campeões – para o grande momento – jogar a Copa em casa. A mentira foi endossada pela Copa das Confederações e ganhou uma sobrevida agora em 2014, menos pela própria Seleção, e mais pelo desempenho equilibrado das demais equipes. Até a semifinal, por certo. O fato é que o padrão técnico por nós encampado carece da genialidade individual. Isso deu certo até aqui. Cinco títulos provam isso. Contudo, parece não dar mais. Talvez essa seja a questão mais dramática, e muitos dirão o contrário. Mas o fato é que à época da convocação dos jogadores, poucos, um ou dois, foram contestados. Ainda hoje, depois da derrota, não somos capazes de imaginar outro time. Logo, suponho, precisamos imaginar outro jeito de jogar;

2. (Miroslav Klose, 23min.) A arrogância do nosso futebol impressiona. Ela reverbera no comportamento diminuto da imprensa nacional. A matéria de Tino Marcos e Mauro Naves sobre a partida, exibida na manhã seguinte, resume exemplarmente essa questão. Ambos significaram a derrocada dizendo que “os alemães jogaram de vermelho e preto, mas parecia que eram os brasileiros”. Conversa! O Brasil nunca jogou daquela forma, e nunca jogará. A não ser, claro, que esteja disposto a rever seu padrão tático substantivamente, como anunciei há pouco. Não que seja essa a saída. Mas o futebol se modernizou, e nós não. Num jogo com 22 atletas em campo, costumamos depender de apenas um. Volto a dizer: tem dado certo. Porém, se entre 1970 e 1994 se passaram 5 Copas, com 2014 já perdemos a terceira;

3. (Toni Kross, 24min.) A releitura dos gols endossa esse ponto. No primeiro, que ao vivo aparentou erro de marcação, com calma vi um “malandro” Miroslav Klose, em jogada perfeitamente ensaiada, barrar a marcação de David Luiz sobre Müller. Gol de escanteio, com o pé, dentro da pequena área. Erro crasso. Nos demais, passe, passada e finalização. Eficiente e objetiva, a Seleção Alemã não protagonizou nenhum lance “mágico” (nos termos que bem definem o que entendemos por futebol). A única exceção talvez tenha sido o quinto gol, marcado após uma jogada de Sami Khedira que driblou curto, tocou e recebeu de volta. O sétimo, um suposto “golaço” de Schürrle, contou com o capricho do travessão para receber esse epíteto. Nada mais. Ou muita coisa;

4. (Toni Kross, 26min.) O argumento sobre um suposto “apagão” da equipe explica a derrota apenas em parte. Num raciocínio contrafactual, se esse jogo se repetisse 10, 20 vezes, nunca mais teríamos o mesmo placar. Ainda assim, possivelmente testemunharíamos outras 10, 20 vitórias da mesma Seleção. A Alemanha foi eficiente e soberana. Nós, desequilibrados, mais taticamente do que psicologicamente. Ainda que psicologicamente também. Talvez com Neymar em campo não evitássemos a derrota. Apenas evitaríamos o “apagão”, pois ele, nosso “um” entre onze, garantiria a chance ilusória de reação pelo fator psicológico, e não tático;

5. (Sami Khedira, 29min.) Individualizar a falha é um erro. Fred é, sem dúvida, o maior “mico” da Copa. Entretanto, no jogo em particular, foi Fernandinho, que vinha fazendo uma brilhante Copa, quem errou nos gols 2, 3 e 4, respectivamente nos minutos 23, 24 e 26, fato que configurou o suposto “apagão”. Não por acaso foi sacado no intervalo, visivelmente abatido. Isso não significa que a culpa é de um. Fomos atropelados por um time superior taticamente e tecnicamente, com menção especial para o grande jogador Toni Kroos, que apesar de craque, não é "um" entre onze;

6. (André Schürrle, 69min.) Quando critico o futebol do passado que apresentamos, critico a CBF. Malgrado as escolhas que se fizeram anteriormente, vimos um planejamento que envolvia folgas, “treinos” regenerativos na piscina e treinos recreativos para “esconder” o esquema tático da imprensa e, por conseguinte, dos adversários. Disse o “gaiato” que Felipão escondeu tão bem o esquema tático, que nem ao menos os jogadores tomaram conhecimento de sua existência. É mentira comparar nossa derrota de agora ao que sofreram os alemães em 2006 e 2010. Eles foram capazes de reinventar seu futebol olhando para seus erros. Nós preferimos esconder os nossos nos erros dos outros. E com isso não aceito a esquiva de que quem perdeu foi a Seleção, e não o Brasil. Se “somos todos um só”, perdemos juntos;

7. (André Schürrle, 79min.) Vi uma Seleção Alemã respeitosa. Não pelos pedidos de desculpas após o jogo, que me soaram cínicos no momento. Gostei das declarações do técnico J. Löw sobre a pressão de se chegar à final jogando em casa. Fora isso, só hoje consigo aceitar uma suposta simpatia do Podolski pelo Brasil, que ainda me soa um misto de cinismo com estratégia para assegurar a torcida ao seu lado. Sentimento que radica, por certo, na dor da derrota. Mas, o que se há de fazer? O respeito que há pouco aludi se explica pelos 7 gols marcados. Nós, se por algum realismo fantástico, abríssemos 2 ou 3 gols de frente, manifestaríamos nosso “apreço” pelo adversário com dribles, lances de “olé” e show para a torcida. Eles, deram passe, passada e finalização em gol. Confesso que me senti respeitado pela dignidade, eficiência e capricho com os quais os alemães nos golearam;

Post-scriptum. (Oscar, 90 min.) O que de positivo vi? Poderia dizer que achei o choro do David Luiz – grande jogador – honesto. Contudo, opto pelo modo como a Copa no Brasil escancarou o atraso da CBF, por um lado, com seu “presidente-bicheiro”, seu assessor de imprensa destemperado, seu planejamento equivocado, mas seguido à risca, e escancarou, por outro lado, a própria FIFA. Desde o debate travado por Romário à época da votação da “lei geral da Copa”, passando pela recusa de Aldo Rebelo em se curvar perante a arrogância de Jérôme Vacke, pelas “Jornadas de junho de 2013” e o #NãoVaiTerCopa, até chegarmos no escândalo da venda de ingressos desmascarado ela Polícia Federal, podemos dizer: o Brasil não “arregou”. Eleitoralmente, a derrota será nula, como a vitória o seria. Na prática, compro o ponto do Juca Kfouri sobre as relações promíscuas estabelecidas entre a FIFA e as federações nacionais, que aqui encontraram barreiras, seja numa sociedade civil pululante, seja no próprio aparelho coercitivo do Estado.

Gosto de futebol e torci a favor da Copa. Foram grandes jogos. Ainda faltam dois. Não concordei com boa parte do teor dos que a ela se opuseram. Ainda assim, vejo nisso tudo um legado e torço, muito, para que ele seja algo mais do que a estrondosa fatura do cartão de crédito do amigo boleiro.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Renovação e mentira (Coluna Cena Política - Rádio Catedral FM 102,3)


Foi Maquiavel quem, no século XVI, disse que a política era o reino da mentira. Por vezes mal interpretado, o pensador florentino queria, com tal afirmação, mostrar como a política constitui um campo de ação regido por regras próprias, que pode exigir certas “mentirinhas”. Faz-se isso muito na política. Não necessariamente com o objetivo de enganar alguém. Mas, para amenizarmos o desconforto com a palavra, mente-se com o objetivo de convencer alguém, de iludir no bom sentido (caso exista). A grande “mentirinha” contada na largada da corrida para a prefeitura de Juiz de Fora é, a meu ver, o tema da renovação. Ainda que a cidade clame por ela, reverberando, a cada ano eleitoral, sua necessidade, novamente seu uso nas campanhas parece ser um instrumento retórico. A despeito de alguns candidatos o mobilizarem abertamente, tentando, com graus variados de sucesso, incorporar o “novo”, o peso da tradição faz-se presente de maneira sutil, imperceptível se nos apegarmos apenas ao que é dito. Basta observarmos como, agora em 2012, novamente o baú do passado foi aberto com o objetivo de atualizar o presente. Margarida Salomão (PT), primeira colocada nas pesquisas, convidou, ao lado de Lula e Dilma, Tarcísio Delgado como apoiador. Experiente político da cidade, Tarcísio já teve a própria Margarida como secretária de governo em administrações passadas, e no presente se desfiliou do PMDB, depois de 46 anos de militância, para apoiar a candidatura petista. O jovem Bruno Siqueira (PMDB), quem melhor incorporaria o “novo”, vive o dilema de ter que mobilizar o “velho” na tentativa de não espantar eleitores inseguros. Para tanto, invoca o legado de Itamar Franco, que em vida já o havia eleito seu continuador. Já Custódio Mattos (PSDB), atual prefeito, naturalmente nega a renovação e recorre ao tema da experiência administrativa como trunfo. Seguindo o perfil do seu partido, Custódio enaltece seus feitos, convidado a si mesmo como estratégia, mas prometendo ir além, em razão da alta rejeição que enfrenta. Malgrado tudo isso, o tema do novo persiste. Margarida o quer, em parte. Bruno o teme. Custódio o nega, também parcialmente. Apenas as candidaturas mais abaixo nas intenções de voto – PCB e PSTU – recorrem ao “novo” de maneira confortável, utilizando, porém, argumentos de corte mais drásticos do que o eleitorado médio costuma aceitar. Nessa direção, se Maquiavel dizia que a política é o reino da mentira, ela é, por extensão, o reino da desconfiança. E desconfio de que o novo não será, novamente, decisivo este ano.

A coluna Cena Política vai ao ar todas as sextas (no jornal das 8h), na Rádio Catedral FM 102,3.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Salvos pelo gongo (Coluna Cena Política - Rádio Catedral FM 102,3)


A impugnação da candidatura de Alberto Bejani (PTB) para vereador conferiu, para muitos, a sensação de que fomos salvos pelo gongo da Justiça Eleitoral. Desde sua renúncia em 2008, depois de mais uma bombástica operação da Polícia Federal pelo Brasil, Bejani vinha ensaiando seu retorno. Já naquele ano ele fez seus primeiros gracejos ao manifestar apoio à candidatura de Margarida Salomão (PT), dizendo, à época, que seu voto era “feminino”. A despeito de ter sido preso duas vezes em decorrência de um escândalo de malversação do dinheiro público – relacionado ao exorbitante aumento no preço do transporte coletivo na cidade –, Bejani ainda portava uma quantidade expressiva de dinheiro vivo e armas não registradas em sua primeira detenção. Algo que não impediu o radialista de continuar falando, também na política. Prefeito da cidade na década de 1980, deputado estadual por duas legislaturas, eleito novamente para o Executivo municipal em 2004, Bejani é um caso exemplar na política brasileira: carismático, despreocupado com a fama ruim que o cerca nos meios que nele não votam, criou uma espécie de nicho eleitoral em Juiz de Fora que dificilmente desaparecerá. Sim, minha previsão é óbvia: caso a Justiça Eleitoral não tivesse, com base na lei da ficha limpa, impugnado a candidatura de Carlos Alberto Bejani, fatalmente ele seria eleito. Ou alguém duvida? O fato nos convida a pensar o processo democrático brasileiro, na sua institucionalidade e, sobretudo, na cultura política do eleitor. Ainda que a lei da ficha limpa seja uma conquista, fundamentalmente por impedir que políticos em exercício renunciem para escapar da cassação, na qualidade de lei ela é, como todas as outras, passível de interpretações. Não por acaso o advogado de Bejani disse que ainda não acabou. Seu argumento, que encontra precedentes pelo país, é de não foi protocolado à época um pedido de cassação do ex-prefeito, mesmo porque Bejani se antecipou aos fatos renunciando. Logo, não havia porque prosseguir com processo na Câmara dos Vereadores. Em 2008 a lei da ficha limpa não existia. Como poderiam os vereadores locais imaginar que tal artimanha jurídica seria mobilizada? Não poderiam. Ainda que as instituições política no país tenham progredido, especialmente em sua racionalização e mecanismos de controle, persistem possibilidades de interpretação legal para as quais não podemos fazer nada. Aliás, podemos sim. Podemos votar! Chego, com isso, ao tema que me interessa: a cultura política do eleitor. Por que cargas d’água o slogan “rouba, mas faz”, e outros igualmente perversos, ainda elegem gente neste país? Creio que é sobre isso que temos que nos concentrar a partir de agora, concomitante ao incremento institucional da democracia, é claro. Pois senão, dependeremos sempre do gongo da justiça a nos salvar. E sem querer colocar medo em ninguém: ele pode falhar.

A coluna Cena Política vai ao ar todas as sextas (no jornal das 8h), na Rádio Catedral FM 102,3.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Piada (ou "paixão") nacional? (Coluna Cena Política - Rádio Catedral FM 102,3)

Esta semana ouvi uma afirmação, vinda de um importante ator da televisão brasileira, que dizia, talvez em tom de autocrítica, “nem tudo o que a sociedade demanda é saudável para ela”. O assunto era outro, mas quando abro as páginas do jornal pela manhã me deparo com duas manchetes curiosas abrigadas na mesma seção: política. A primeira trazia a fanfarronice já notória de Roberto Jefferson, presidente nacional do PTB e um habitue nos escândalos políticos, que alardeava a segurança da sua não condenação no julgamento do esquema de compra de apoios parlamentares, conhecido como mensalão. Jefferson foi, à época, apontado como um dos principais operadores do esquema, ao lado do ex-chefe da Casa Civil, José Dirceu, ambos cassados ainda no primeiro mandato do governo Lula, em 2005. A segunda manchete que me chamou a atenção, dizia que a CPI do Cachoeira, que na minha opinião ainda nada fez de útil, já tem uma musa. Intitulada o “Furacão da CPI”, a matéria discutia o futuro da assessora parlamentar do senador Ciro Nogueira (PP-PI), a advogada Denise Leitão Rocha, protagonista de um vídeo com cenas íntimas que já circula na internet. Aliás, agora só se fala nisso, até que outra bobagem qualquer que diga respeito à vida íntima de alguém famoso ou não, ocupe os noticiários nacionais. Que demanda é essa, aproveitando a afirmação com a qual comecei essa conversa, nada saudável para a sociedade brasileira? Na semana seguinte à cassação de Demóstenes Torres, em meio a um turbilhão de suspeitas sobre negócios nada republicanos firmados entre o poder público e empreiteiras, onde um bicheiro, que já se mostrou capaz de tragar para a ilegalidade mais gente do que supúnhamos, defendido habilmente por um ex-ministro da Justiça, voltamos nossos olhares para a vida privada de uma assessora parlamentar, que caiu na infelicidade de ser filmada em cenas íntimas, numa era de pouca privacidade. Agora se discute um possível caso dela com o deputado Romário (PSB-RJ), ou mesmo a existência de um harém montado por Ciro Nogueira em seu gabinete. Do que mesmo falávamos? Ah, é verdade, sobre corrupção na máquina pública, problema apontado por quase todos os brasileiros como o nosso grande mal. Paradoxo interessante: a sociedade parece saber quais são os seus desafios, mas continua a demandar deleites nada “saudáveis”, para recuperar a afirmação inicial, não sem polêmica, claro. Repentinamente é melhor devassar a vida íntima de uma mulher que há pouco nem sabíamos que existia, e que agora divide as manchetes sobre política com o deboche de Roberto Jefferson sobre a possibilidade de ser ele condenado no Supremo, ofuscando, ainda mais, uma Comissão Parlamentar de Inquérito que transparece aquilo que julgamos ser o nosso problema. Suspeito de vários enganos. Mas conservo a vaga impressão de que enquanto publicizarmos tudo, mesmo a intimidade, mas, sobretudo a corrupção, sem punir ninguém, permaneceremos com a desconfortável sensação de piada que paira sobre a política nacional. Ou seria paixão nacional que paira sobre a piada da política? Vai saber. 

A coluna Cena Política vai ao ar todas as sextas (no jornal das 8h), na Rádio Catedral FM 102,3

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Sujeira generalizada (Coluna Cena Política - Rádio Catedral FM 102,3)


Há muito tempo Demóstenes Torres já era um ex-senador. Sua cassação, consumada na tarde de quarta-feira depois de um melancólico e auto-centrado discurso de defesa, apenas oficializou o que todos já sabiam e aguardavam. Isso porque, Demóstenes já havia sido abandonado pelos amigos, aliados, pela imprensa e pelo próprio partido. Perambulava pelos corredores do Senado causando um desconforto, pois ninguém queria ser visto com ele. O antigo arauto da moralidade, assíduo freqüentador das páginas dos jornais apontando o dedo para supostos corruptos passou, ele próprio, a ser estampado nas colunas como o pivô de escândalos políticos. Quarta, no seu discurso de defesa, alertou os mais jovens: cuidado, não façam como eu fiz, não assumam a defesa da moralidade, pois isso pode, num futuro próximo, deixá-los sozinhos. O ato final de Demóstenes na casa trouxe consigo a pior das mensagens: estão me cassando porque eu, inadvertidamente, quebrei o coleguismo e denunciei meus colegas. Nunca gostei do moralismo rasteiro com o qual Demóstenes e muitos outros achavam que seriam capazes de fazer política. Ao invés de construírem alternativas para modelos questionados, ele e outros ocupavam-se da estratégia perigosa de desestabilizar adversários nas páginas policiais. Não afirmo com isso que o combate à corrupção possa ser deixado de lado. Entretanto, a crença na política e em suas instituições nada ganha com o que ocorreu. A cassação de Demóstenes Torres e seu desesperado apelo na tribuna causam a inevitável impressão na sociedade de que ali “ninguém se salva”. Ainda mais quando lembramos que o único senador cassado antes de Demóstenes foi Luis Estevam, em 2000. Por um lado, reconheço a virtude de mecanismos recém-inaugurados na política brasileira, como a lei da ficha limpa, que cancelaria os direitos políticos do ex-senador ainda que ele renunciasse para evitar a cassação. Mas por outro, o episódio incomoda ao difundir um clima de sujeira generalizada. Aquele que antes pautava sua conduta na defesa da moralidade é, ele próprio, cassado por quebra de decoro parlamentar. Ou, em outras, por ter sido imoral. E ainda diz, ao sair, que não sobra ninguém, pois estaria sendo perseguido pelos senadores pelo simples motivo de outrora tê-los perseguido. Antes de me perguntar quantas cabeças ainda vão rolar no episódio Carlinhos Cachoeira, prefiro cobrar que o Congresso Nacional ocupe-se mais com tentativas honestas de correção da estrutura, como a lei da ficha limpa e o controle do financiamento de campanhas, por exemplo, e não em ficar apenas agindo pontualmente no enfrentamento do que pior ele produz: corruptos. Porque se assim for, Demóstenes estará sempre certo: não se salva ninguém. 

A coluna Cena Política vai ao ar todas a sextas (no jornal das 8h), na Rádio Catedral FM 102,3.

sexta-feira, 9 de março de 2012

O Brasil, a FIFA e o "complexo de vira-lata" (Coluna Cena Política - Rádio Catedral FM 102,3)

O embate gerado pelas polêmicas declarações do secretário geral da FIFA, o francês Jérome Valcke, dizem muito sobre o modo como o Brasil se entende hoje e, sobretudo, quer ser entendido no mundo. Episódio que serve, ainda, para pensarmos nos ganhos que eventos de grande porte, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, promovem nos países onde ocorrem. Lembremos os fatos. Diante do atraso na votação da chamada lei da geral Copa, medida extraordinária que regulamentará os jogos no país, pois já temos um Estatuto do Torcedor que será deixado momentaneamente de lado, o secretário da FIFA disse que o país precisava “levar um chute no traseiro”. Aldo Rebelo, ministro dos esportes, imediatamente reagiu, dizendo não ser mais Jérome Valcke um interlocutor, colocando como condição para a continuidade dos trabalhos a substituição, por parte da FIFA, do seu representante no Brasil. A entidade, por sua vez, teria contratualmente o direito de retirar a copa do Brasil até o meio do ano, transferindo o evento para outro país mais “dócil”. Logo, alguns, ainda abalados por aquilo que Nelson Rodrigues chamava de “complexo de vira-lata”, criticaram Aldo Rebelo, talvez por seu “orgulho” exagerado. Assim como numa briga entre amigos, a turma do “deixa disso” não tardou em aparecer, com pedidos de desculpas que aguardavam, até agora, apenas o aceite do próprio ministro. Não é de hoje que sabemos que eventos como a copa trazem inúmeros benefícios para os países onde ocorrem, como o incremento dos meios de transporte, a melhoria dos estádios, grandes lucros com o turismo, além da própria visibilidade do país e do incentivo ao esporte. A dúvida que persiste, no entanto, é sobre a durabilidade desses benefícios. Não precisamos ir longe. A copa da África do Sul, ocorrida em 2010, primeira realizada naquele continente, transformou o país nos dias que circundaram o evento, com melhoras inclusive no sistema judicial. Apesar disso, dois anos após o término da competição discute-se a demolição de alguns dos milionários estádios erguidos, antes sua inutilidade num país que tem pouco apreço pelo futebol. Nosso caso é, por certo, diferente. Aqui o futebol é paixão nacional. Mas o exemplo, a meu ver, é o mesmo: a FIFA parece uma “nave espacial” que pousa no país, promove suas transformações e, depois, vai embora. Os desdobramentos do que fez pouco importam. No fato recente, o soberano Congresso Nacional discute uma lei que afetará a realização do evento no nosso território e a entidade quer “dar as cartas” também nisso. Certamente Câmara e Senado têm os seus defeitos e barganhas pautadas por interesses nada nobres podem motivar atrasos e retrocessos. Ainda assim, perdoe-me o Sr. Jérome Valcke, mas Aldo Rebelo está certo e não somos “vira-latas” para tomar um “chute no traseiro”. Aqui quem dá as cartas somos nós!

A coluna Cena Política vai ao ar todas as sextas (no jornal das 8h), na Rádio Catedral FM 102,3.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Uma oposição baratinada (Coluna Cena Política - Rádio Catedral FM 102,3)

Já me adiantando um pouco aos fatos, Carlos Lupi, ministro do trabalho, tem tudo para cair. Independentemente do que diga no Senado ou dos possíveis equívocos de comunicação, essa tem sido a tônica do governo Dilma, e não por culpa da presidenta, é bom que se diga. O enredo que se repete, do qual apenas Nelson Jobim não foi vitimado, segue os mesmos passos: uma denúncia levada à público por um periódico semanal qualquer, que tem sobrevivido disso; a base aliada escuda o acusado; seu próprio partido oscila entre defendê-lo e pedir o seu afastamento até que tudo seja devidamente esclarecido, correndo o risco de, caso o ministro efetivamente caia, “perder” um ministério; a “bola da vez” se farta em explicações desencontradas; novas denúncias aparecem; e, ao final, acaba sendo menos custoso para o governo demitir um ministro do que defendê-lo. Não preciso lembrar que ministros bem menos “falastrões” duraram pouco. No caso de Lupi, isso é seguramente um agravante. Fato é que pouco importa a veracidade das denúncias e, o pior a meu ver, depois de demitido pouco se averigua sobre o andamento das investigações. Trata-se de um “delito” político, enquanto ainda no poder, que depois nada interessa aos ávidos maquinadores da oposição. Não defendo com isso, é bom lembrar, que ministros ou integrantes do alto escalão do governo sejam protegidos aos “trancos e barrancos”. Incomoda, apenas, ver como a motivação para a derrubada ou manutenção em uma determinada pasta se dá, sobretudo, por interesses políticos ou partidários, que desistem de “perseguir” o acusado em nome da idoneidade da administração pública, no momento em que o acusado é “abandonado” pelo governo. Inevitável pensar que por trás da sucessiva troca de ministros no governo Dilma radica não o combate à corrupção, idéia-força no presente, mas sim a incessante tentativa de abalar o governo acusando seus integrantes. Reconheço, porém, que isso confere certo tom “animado” a política nacional, que convenhamos, é recheada em “vai-e-vem”. Mas insisto: oposição não se faz apenas com “escândalos” e a celeridade de Dilma em “cortar o mal pela raiz”, mantendo sua positiva avaliação junto à opinião pública, demonstra isso. É preciso que a política se faça com conflitos não apenas judiciais, mas com conflitos políticos, de idéias, projetos, de futuro. Ainda vejo uma oposição baratinada, aguardando a próxima denúncia para seguir o mesmo enredo. E nele, quem tem vencido é Dilma Rousseff.
A coluna Cena Política vai ao ar todas as sextas (no jornal das 8h), na Rádio Catedral FM 102,3.

domingo, 10 de abril de 2011

Intolerância - Laboratório de Estudos Hum(e)anos

Diogo Tourino de Sousa (Cientista Político - UFV)

Há duas semanas o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) vem ocupando as páginas de discussão e redes de relacionamento na internet, motivo de indignação para boa parte da opinião pública. Isso porque, Bolsonaro é pródigo em declarações preconceituosas e homofógicas, figura já conhecida no cenário nacional que chega a sua sexta legislatura. O que de novo, no entanto, está acontecendo?

No caso recente, o deputado participou de um programa de TV, respondendo a questões que eram formuladas previamente por cidadãos nas ruas, incluindo, ao final, uma pergunta feita pela cantora Preta Gil sobre a possibilidade do casamento entre brancos e negros. Bolsonaro respondeu a todas transparecendo o que de pior pode existir no convívio democrático. Foi racista, preconceituoso, antidemocrático, para não dizer desonesto com a história do país no momento em que dirige críticas descontextualizadas ao passado da Presidenta Dilma. Em sua resposta a cantora, ele se disse livre de “promiscuidades” quando negou a possibilidade de um filho seu se casar com uma mulher negra.

Não vejo novidade alguma em se tratando de Jair Bolsonaro. Porque agora tais comentários reverberaram com tanta polêmica? Poderíamos supor que um dos motivos seja o programa onde tais declarações vieram à público. O CQC, em seu quadro “O povo quer saber”, é uma mistura de jornalismo com escracho, que há muito se mostra capaz de agregar certa insatisfação com a política nacional, com alguma dose de irresponsabilidade. Creio, porém, que há algo mais.

O Congresso Nacional vive hoje a tramitação de diversas pautas polêmicas, como a união homoafetiva, por exemplo, contexto que incitará o lado nada progressista, nem tolerante, da política brasileira. Contudo, esse é, a meu ver, exatamente o papel do Congresso: funcionar como um catalisador, trazendo para dentro dele a pluralidade de opiniões e suas disputas no interior da sociedade.

Digo isso porque acredito que as disputas no campo da política tendem a ser mais saudáveis do que as disputas fora dele. Seguramente não concordo com quase nada do que Bolsonaro diz, mas há um elemento importante para a democracia no momento em que ele o faz. E há um elemento ainda mais importante quando a opinião pública se mobiliza para combatê-lo.

Esta semana manifestantes foram a Câmara com cartazes contra as suas declarações. No momento em que problemas cruciais para o convívio plural na sociedade contemporânea são vocalizados no mundo público, seja por meio das declarações condenáveis do deputado, seja pela força da sociedade civil em combatê-lo, é como se tirássemos de debaixo do tapete desafios que havíamos escondido lá por incapacidade de resolvê-los. Bolsonaro não sabe, mas ao enfatizar sua postura preconceituosa, militarista e antidemocrática, sustentada por uma parte significativa da sociedade brasileira que nele deposita seus votos, ele acabou politizando “tabus”. E como a boa teoria democrática nos ensina, tabus devem ser discutidos e não silenciados.

Ao deputado, em nome do respeito à diversidade e da necessidade de discutirmos o que antes escondíamos, lembro do iluminista francês Voltaire: “posso não concordar com nada do que dizes, mas defenderei até a morte o vosso direito de dizê-lo”.

Viçosa, 07 de abril de 2011.

Publicado originalmente no sítio do Laboratório de Estudos Hum(e)anos.

Para conhecer o sítio, clique aqui.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Amazonino e a sociedade civil (Coluna Cena Política - Rádio Catedral FM 102,3)


A semana começou com as imagens do prefeito de Manaus, Amazonino Mendes (PTB), discutindo de forma truculenta com uma moradora da comunidade de Santa Marta, na zona norte da cidade. Na ocasião, Amazonino visitava áreas soterradas pela chuva quando foi questionado por uma dona de casa sobre as providências a serem tomadas pela prefeitura, reforçando a carência dos moradores que, em tese, justificaria sua necessidade de residir em áreas de risco. Amazonino não titubeou ao dizer “então morra”, sem falar, é claro, na declaração preconceituosa em relação aos paraenses, estado natural da cidadã que o questionava. Mais perversa ainda é continuação da cena, quando o prefeito é alertado sobre sua inabilidade e parte, sem ressalvas, para uma política de cooptação aberta dos moradores. Amazonino promete, na tentativa de contornar o ocorrido, remover os moradores para um terreno novo, beneficiando-os com material de construção e, enquanto isso, pagaria o aluguel de todos até que uma “solução” definitiva fosse encontrada. Na seqüência, sob ovação, Amazonino declara: “de agora em diante eu sou o pai de vocês”. O episódio é mais do que corriqueiro e carrega, creio, elementos importantes para compreendermos os resquícios do que de mais atrasado sobrevive na política brasileira. A moradora, mulher, dona de casa, que se insurgiu contra a truculência e a veleidade de promessas vazias é marca de uma sociedade civil que se torna cada vez mais robusta. Coberta pela imprensa, ávida por escândalos, mas ferramenta importante na democracia, ela, a cidadã, questiona e manifesta carências. Ele, o prefeito, exemplar da política tradicional, destila inabilidade para o convívio democrático. Sua tentativa de colocar os moradores contra aquela que insurgiu é escancarada, quando ao final das “promessas” Amazonino reforça a presença de “ignorantes” discutindo com ele na sua chegada. Confesso que fiquei consternado com a brutalidade do prefeito, mas feliz com a presença de personagens na sociedade capazes de se erguer. Sinal dos bons tempos que talvez tenham vindo para ficar, somente a consolidação da sociedade civil, da sua capacidade de se organizar, vocalizando no mundo público demandas e respeitando as regras do jogo democrático, fará com que as seqüelas do atraso sejam definitivamente superadas. A propósito, Laudicéia Ramos é o nome da moradora verbalmente agredida.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Casamento estável? (Coluna Cena Política - Rádio Catedral FM 102,3)


Olá, boa tarde! Foram eleitos esta semana os presidentes da Câmara e do Senado Federal, para um mandato de dois anos. A disputa manifesta a força de determinados partidos no quadro nacional e, sobretudo, a capacidade do governo de construir maiorias no Congresso. No Senado, José Sarney (PMDB-AP) ganhou com facilidade, sendo reconduzido ao cargo pela quarta vez. Fato que corrobora com o perfil conservador da casa, sem juízos de valor. Já na Câmara, Marco Maia (PT-RS) enfrentou, sem maiores problemas, o voluntarismo de alguns parlamentares. Mesmo assim, obteve 375 votos, bem mais do que precisava para ser eleito em turno único. Ambos os resultados recuperam um princípio não enunciado, mas legítimo: os partidos de maior representação parlamentar, obtida nas urnas, têm o direito de ocupar a presidência das casas no Poder Legislativo. Não é sempre, porém, que tal prerrogativa é assegurada sem disputas. Em anos recentes vimos como o exemplo mais esdrúxulo, a eleição de Severino Cavalcanti, personagem do atraso imposto pela oposição no interior da Câmara como desafio ao poderio do governo. A piada que Severino representou foi de muito mau gosto, ao ponto do mesmo ser deposto em curto período de tempo. No presente o cenário é mais ameno para as intenções governistas. PT e PMDB conseguiram a presidência das casas, desenhando costuras dentro do possível e rechaçando distensões, como é o caso da candidatura oposicionista de Sandro Mabel (PR-GO), que contrariou a determinação do seu partido de apoiar a Maia e será, agora, alvo de um processo disciplinar. Com isso, PT, o partido da presidenta Dilma, e PMDB, a legenda do seu vice Michel Temer, saem vitoriosos. Muito se falou durante as eleições presidenciais que Dilma, à época candidata, não teria habilidade política para negociar. A comparação com o Lula era inescapável. Ao mesmo tempo, a presença de Temer na chapa não recebeu a devida atenção. Ele é o homem da construção de maiorias, não necessariamente por meios consensuais. Sua habilidade se manifesta, antes, dentro do seu próprio partido, um celeiro heterodoxo de orientações ou falta de, que sempre requer arbítrio em suas decisões. Sem falar, é claro, do político de sólida carreira parlamentar. Creio ser sua fidelidade um bom termômetro. Assim, aos que duvidaram da estabilidade do novo governo fica o recado: o casamento entre PT e PMDB começou bem. Resta saber se terá, como os casamentos em geral, um final triste. Boa tarde a todos e até o Cena Política da semana que vem!